_Você acha que os pais escutam quando você pede algo em datas importantes? - perguntou o outro.
_Claro que sim. No final, eles vão te dar o video-game. - disse Rodrigo com o ar desinteressado.
O amigo assentiu. O outro sempre ganhava o que queria. O outro era mais querido, mas amado. O outro parecia ser mas cuidado. O outro era sempre mais.
Rodrigo balançou a cabeça. Sabia que deveria querer o presente para o amigo, para que ficasse feliz também. Que seja, não é mesmo?
_Você só vai me levar para sua casa, para a gente brincar, não é mesmo Max?
_Mas é claro. Você é meu amigo Rodrigo, nem pensei em levar outra pessoa.
Max era menor, mais magro. Rodrigo parecia o irmão mais velho que brincava para agradar o outro. Gostava do menor, era um bom garoto, mas algo nele incomodava Rodrigo. E isso, nem ele entendia porquê.
_Está anoitecendo, - começou Rodrigo - é melhor pararmos de brincar. Senão depois sua mãe fala que eu fiquei te segurando e que é perigoso. Preciso ir também.
_Está bem. Posso te chamar na sua casa amanhã?
_Claro. Depois das nove, quero dormir bastante amanhã de manhã.
O outro sorriu.
Rodrigo voltou devagar pensando em sua vida. Seu pai nunca estava em casa e sua mãe nunca estava pronta para ser mãe. A comida dela era horrível, o quarto quem limpava era ele. No final, passou a cozinhar também só para não ter que comer a comida da mãe. O pai era muito bravo e sempre temia dizer que as roupas e o sapato já não serviam. Pensou na última conversa com o pai, sobre vender picolés na porta da escola do bairro para o pessoal da manhã e da noite.
"_Não é perigoso, pai? - perguntou educado.
_Largue de ser bobo, moleque, quem faria mal a você? - respondeu o pai nervoso."
Lembrava disso e ficava chateado com o pai. Ele realmente era chato.
Quando chegou em casa sua mãe estava deitada vendo TV. Perguntou se o menino queria comer algo e ele respondeu que não e foi para o quarto. Pegou o convite do aniversário de Max em cima da escrivaninha. Ia ser uma super festa.
***
A festa foi realmente um sucesso. Palhaços, brinquedos, muitos doces, lembrancinhas, tudo propiciou a Rodrigo sorrisos verdadeiros, risadas gostosas, coisas que ele não fazia sempre. Sentiu-se bem na festa e só parou para pensar em uma coisa no final da festa: "Essa festa não é minha. É do Max". Sentiu-se culpado por estar feliz e ficou pior quando foi avisado que seu pai o esperava lá de fora.
Tinha visto Max abrir a embalagem do video-game ganho pelos pais. Ficou com vontade de quebrar o aparelho, não sabia por que. Em casa, explicou que tinha comido na festa e que ia se deitar. Já no seu quarto, ligou uma TV pequena que tinha lá, muito antiga e ficou vendo um filme americano de terror. Gostava desses filmes. Achou-se esquisito, na sua idade odiava gibis infantis, desenhos animados, filmes infantis... Odiava ser criança. E tinha aprendido isso com sua família.
No filme o serial killer matava sem piedade. Rodrigo achou divertido, porém uma das mortes o surpreendeu de verdade: quando o assassino jogou um aparelho elétrico dentro de uma banheira enquanto a moça tomava banho. Rodrigo ficou pasmado com a cena e sorriu. Aquilo o fez bem de alguma forma.
***
_Você tem quantos anos, Rodrigo? - perguntou Max enquanto abria a porta do quarto.
_Onze. - respondeu enquanto entrava.
_Daqui uns anos faço onze, aí vou ser grande como você!
_Talvez até maior, Max. - respondeu sorrindo.
Max deu uma gargalhada feliz por ouvir aquilo. Apontou para a cama repleta de presentes:
_Espero que no meu aniversário de onze anos eu ganhe tanto presente ou até mais!
Realmente, era muito presente, porém fora o video-game o resto não interessava a Rodrigo. Desconversou:
_São demais. Mas eu queria ver seu video game.
_É mesmo, o mais legal.
Max empurrou os presentes para uma beirada da cama. Não caberia os dois ali sentados, então resolveu sentar no tapete. Com o controle ligou a TV que estava presa a um suporte na parede. O video-game estava ao lado dela e então, Rodrigo tratou de ligar. Sentou-se. Finalmente ia jogar algo legal.
_Um de porrada? - perguntou o maior.
_Pode ser.
Rodrigo poucas vezes tinha tocado num video-game. Às vezes comprava uma hora no cyber café ao lado da sua escola para jogar, mas sempre perdia. E ali, com Max não foi diferente. Max já tinha aprendido com uns primos. E agora estava dando uma surra em Rodrigo.
Depois de perder por mais de dez vezes, Rodrigo levantou-se e jogou o controle no chão.
_Ei, não joga, senão quebra! - bradou Max.
Rodrigo não respondeu. Simplesmente deu um soco muito forte no menor. Rodrigo era grande demais para sua idade e Max muito magro para uma criança. Um soco foi o suficiente para quebrar um ou dois dentes do outro.
Rodrigo puxou o video-game dos fios com toda a força, arrebentando alguns, e jogou sobre o outro que respondeu com um grito que pedia para parar. A mãe de Max ouviu da cozinha o grito do filho. Quando a mulher chegou correndo no quarto, Max estava com a cabeça sangrando e Rodrigo com alguns fios do video-game nas mãos, puxando-os com toda a força no pescoço de Max que já estava roxo. Max estava quase morto.
Rodrigo tentou se debater contra a mulher sem sucesso. Correu para bem longe, menos para sua casa. Se chegasse lá, provavelmente...
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