Ps: Essa história é baseada num evento ocorrido há muito tempo, no estado de Minas Gerais.
Molecagem e invocações são naturais de crianças. Meninos sempre arranjam algo para fazer, tornando aquilo, através da imaginação, uma aventura sem tamanho.
E isso não é diferente nas cidades pequenas de interior. A roças, árvores, grutas são os locais onde essas invocações se tornam mais fortes. A adrenalina sobe no corpo da criança e quando vê, se encontra numa situação muito prazerosa, misturada ao perigo, à aventura.
Uma vez, em terras próximas à cidade de Romaria, um menino caminhava de sua casa até a roça onde o padrasto trabalhava para lhe levar o almoço. O caminho era um pouco longo e cansativo. E por conta disso, o menino odiava ir até lá. Seu padrasto não era um homem muito bom, judiava de sua mãe, dele e de seus irmãos, mas ainda assim a mãe insistia em ficar do lado daquele homem. O pai do menino teria morrido e deixado um pequeno pedaço de chão para a família. Lá eles plantavam o necessário para se alimentar, e o padrasto trabalhava nas roças que haviam na região.
Certo dia, obrigado pela mãe, foi levar o almoço para o padrasto, o menino foi pelo caminho comum para a roça levar o almoço do padrasto. Para se divertir, caçava pedras bonitas no meio da trilha e as juntava. Mas com o passar da caminhada a brincadeira se tornou monótona e então ele passou a olhar para o fundo da mata que limitava a trilha. Começou a procurar algo interessante. E ali, sozinho no meio da mata ouviu entre os arbustos e árvores tortas do cerrado um barulho. Era veloz, porém desesperado. O menino gelou. Só poderia ser cobra! Ficou calmo e procurou pisar devagar. Tinha aprendido com a mãe que as cobras sentem o barulho que fazemos quando pisamos. Não viu quando o ser veloz e desesperado passou rápido cruzando a trilha por trás do menino. Ao ouvir o barulho o menino se virou rapidamente e só viu um rabo preto se enfiando no meio da mata. E o rabo tinha um gancho! Ficou todo emocionado e descobriu uma aventura ali. O padrasto estranhou quando viu o menino chegar sorrindo na roça. Perguntou: "Uai, moleque! O que te deu, hein?" O menino não respondeu. Só se despediu.
Ansioso esperava o dia seguinte para levar o almoço para o padrasto. Às nove da manhã perguntou se o almoço estava pronto. A mãe disse que estava fazendo (é pessoal, em cidades pequenas antigamente se levantava, almoçava, jantava e dormia muito cedo); e às dez chamou o moleque para almoçar e o mandou comer depressa para que logo pudesse levar para o homem.
O menino colocou pouca comida e a comeu depressa. A marmita já estava pronta e o menino se pôs a correr. Perto do local anterior se pôs a prestar a atenção para que ouvisse qualquer barulho. E ouviu.
Um jacaré de cor bem escura estava no meio do seu caminho. Um metro e tanto contando com sua cauda! O bicho o olhava e então o menino começou a jogar pedras que encontrava no chão no bicho.
O animal se pôs a correr pra cima do menino e o derrubou com a cauda. A marmita do padrasto abriu e a comida se misturou a terra. Desesperado o menino começou a juntar a comida e o jacaré fugiu das vistas do menino.
De cabeça baixa o menino chegou e entregou a marmita para o padrasto. Quando o homem viu a terra gritou com o menino: "Desgraçado, por que veio correndo? Seu idiota! Olhe esta comida de terra" e o menino começou a chorar. Ali mesmo, no meio da roça o menino apanhou do padastro e novamente quando chegou em casa. E pra piorar, a mãe não acreditou no jacaré.
***
Sobre o texto:
É verdade que na região de Minas Gerais (onde o cerrado predomina) não há jacarés. O menino da história se chamou Olívio Reis, e ela foi contada por ele por diversas vezes quando eu ainda era criança. Ele faleceu há quase dois anos e morreu acreditando que aquilo era um jacaré. Nossa família sempre acreditou que a história toda fosse invenção dele. Por acaso descobri que aquele animal visto por meu avô era um tiú e realmente parece um jacaré.
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