Caio abaixou a cabeça. A fila para a compra dos ingressos estava enorme e ele só estava na metade. Erguei o braço esquerdo de modo que pudesse olhar as horas. Era sete e meia da noite e Paloma estava atrasada.
_Cinema dentro de um shopping é meio complicado. Segundo andar... Paloma deve estar em alguma loja comprando sapatos. – pensou o rapaz enquanto dava um passo para frente, despertando dentro de si sensação de progresso. – só espero que ela não demore.
Aproximava-se da bilheteria quando começou a se cansar. Apoiou-se no pé direito, esquerdo, muito rapidamente e cruzou os braços. Quando finalmente chegou à bilheteria, já estava com dores nos pés. Já eram oito horas e Paloma nem dera sinal. Comprou os ingressos e desceu para a praça de alimentação. Sentou-se lá e apesar de não querer ligar, não hesitou em tirar o telefone celular do bolso e depois de achar o número da namorada e ficar olhando-o, pensando se ligaria ou não. Ligou. Quando resolveu guardar o celular no bolso Paloma tinha duas chamadas não-atendidas em seu celular.
Várias coisas se passaram na cabeça de Caio. Acidente, assalto, desmaio, problemas familiares... Amassou os ingressos na mão, colocando-os no bolso com dificuldade, pois suas mãos estavam suadas.
Decidiu esperar. Ajeitou-se no banco da praça de alimentação e passou a reparar na multidão. Domingo à noite, shopping cheio. Não se podia ouvir uma frase inteira sem dificuldade por conta do barulho da multidão. Dois garotos corriam perto da Subway e com desdenho Caio os olhou. Reparou numa jovem mais velha, dezoito, dezenove anos, que corria atrás das crianças, vestida de uma calça jeans branca e uma camiseta gola-pólo azul, com um rabo-de-cavalo. “Essa é a babá”, pensou o rapaz buscando com os olhos uma mulher que aparentasse ser mãe dos moleques. Encontrou-a num vestido exótico, na casa dos quarenta, de braços dados com um homem mais velho de barba grisalha. “Aqueles são os pais”, disse para si sorrindo, como se vencesse um desafio.
Caio parou de repará-los e ficou observando a multidão, pensando no barulho. E naquele barulho que hora poderia ser ensurdecedor tornou-se algo como o silêncio e Caio começou a se acostumar com ele. Olhou no relógio de pulso. Já estava começando a sessão para a qual ele comprara o ingresso. Subitamente se levantou e pensou se sua namorada o estaria procurando no andar de cima. Subiu a escada rolante, impaciente, e quando já quase chegava ao outro andar notou um conhecido sentado na praça de alimentação. Um amigo do colégio, do Ensino Fundamental. Estava acompanhado de uma moça, talvez sua namorada.
Caio quase tropeçou ao fim da escada rolante. Foi motivo de escárnio de alguns pré-adolescentes que estavam logo atrás dele. Olhou com ódio para os moleques, mas não disse nada. Perguntou-se por que Paloma demorava tanto. Procurou-a aos redores da bilheteria e nenhum sinal da moça. Pensou em descer novamente, mas desistiu ao topo da escada rolante e resolveu ficar olhando as pessoas da sacada. O conhecido dos tempos de colégio beijava a moça que o acompanhava. Caio começou a imaginar o que aquele teria feito, em quê teria se formado. “Um dia ele falou sobre engenharia. Qual delas? Mecânica, Mecatrônica, Elétrica, Civil, Aeronáutica, Química, Ambiental... Puta que pariu. Qual esse cara escolheu?” – pensou irritantemente. Resolveu observar a moça que acompanhava o conhecido. Mesmo sentada, não parecia muito alta. Dezenove, vinte anos. O casal deu um beijo rápido, e então Caio reparou profundamente o rosto dela. Pelo menos de longe era bonita.
O celular de Caio tocou, quebrando o silêncio interno provocado pelo barulho do shopping. Era Paloma.
_Onde você está? Perdemos a sessão! - disse Caio.
_Desculpe Cá, eu me atrasei e quando saí de casa um maldito motoqueiro me arrancou o retrovisor esquerdo.
_Nossa, você está bem? – perguntou preocupado.
_Sim, só estou plantada no passeio com um policial, fazendo a ocorrência.
_Quer que eu vá até você?
_Não querido, não precisa. Meu pai está vindo, lhe vejo na faculdade amanhã. Você precisa descansar.
_É, ficar plantado no shopping é bem cansativo.
_Desculpe Cá... – carinhosa.
_ Tudo bem, amanhã nos vemos. - e desligou.
Não estava irritado com Paloma, mas ficou chateado por esperar tanto para nada. Mas não culpou a namorada. Resolveu comer algo e no Coffee Town fez o pedido. Enquanto comia duas mocinhas de catorze anos passaram ao seu lado, olhando-o e dando risadinhas. Sentiu-se bem. Ficou pensando no que elas diziam. Se não houvesse tanto barulho no shopping! Não haveria o silêncio interior que o despertara para as outras pessoas.
Assim que saiu do shopping para o estacionamento, o barulho comum das ruas voltou. O silêncio interior se estilhaçou e Caio concluiu que lá dentro sentia-se melhor, no silêncio obrigatório estimulado por multidões. Era uma espécie de cinema mudo em que os atores anônimo, ótimos, interessantes... Enfim, atores que falavam e não eram ouvidos. Eram observados e quem observava (Caio) não se preocupa em ser ouvido. Observar os atores num silêncio pleno interior. O cinema inexistente saíra caro, mas ficar ali plantado...
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