segunda-feira, fevereiro 08, 2010

Soldadinhos de Chumbo

Entrei no local restrito. Aquela cerca de arame farpado me dava arrepios, mas depois de tudo passado nos últimos seis meses, era muito pouco. Meu uniforme estava molhado e sujo de folhas, terra... Mais algumas semanas e estaria fora dali.
No centro do acampamento uma fogueira bem pequena. Não podíamos chamar a atenção do inimigo. Distanciada da fogueira por poucos metros a cabana do "manda-chuva" estava. Ele tinha me chamado e apesar do cansaço da noite que caía sobre as minhas costas, não ousei recusar o chamado.
Fiquei olhando aquela fogueira alguns segundos. Um colega que eu havia conhecido ainda no colégio militar se aproximou. Disse-me que "o homem" teria perguntado se eu já havia chegado. Respondi-lhe sorrindo que já estava indo lá. Não ganhei um sorriso de volta. Apesar da falta de educação não o culpei. Ninguém aguentava mais aquela situação.
Bati à porta da cabana e um subordinado me atendeu. Entrei, e então ele pediu licença e saiu dali. O nosso líder me olhava com admiração (senti isso da parte dele). Agradeceu-me pela minha última ação na missão anterior e lhe disse com todo o respeito que estava fazendo o meu trabalho. Ele sorriu.
Mostrou-me a prancheta rabiscada de giz e explicou-me qual seria a ação do nosso departamento. Perguntou se eu concordava e respondi rapidamente que sim. "Se der certo, prometo que você vai embora em menos de dois dias". Assenti.
Eu estava dispensado. Quando toquei a mão na minha maçaneta, o homem me chamou novamente. Olhei para trás e ele disse em um tom preocupado: "A situação de um soldado fora do seu país é complicada. Nesta guerra são os nossos interesses e o nosso povo que importa. Amor à pátria. Estamos aqui pra defendê-lo com a nossa vida se necessário. A vida dos outros, deste país que estamos, não importa. Pode até ser que haja inocentes, mas não podemos arriscar. Todos. Não poupe ninguém. Estamos numa guerra com a intenção de vencê-la e pra isso precisamos intimidar nosso adversário."
Apesar de gelar por dentro sabia que era necessária todo o flagelo que eu passaria e que eu provocaria. Como cidadão, como patriota; eu deveria executar aquela missão com sucesso. Depois de dizer ao homem que eu entendia e faria sem pensar duas vezes saí da cabana e fui para minha barraca. Meu companheiro estava com os olhos fechados. Achei que estava dormindo, mas quando me deitei e cobri ele sem se virar disse: "O homem já te contou como vamos fazer?". Respondi que sim. "E as crianças? Você teria coragem?". Respondi que não tínhamos escolha. Ele ficou em silêncio. Depois de alguns minutos ele voltou a perguntar-me: "E se uma das crianças notar a invasão e perguntar quem somos?".
Uma lágrima correu no meu rosto. Respondi secamente: "Diga que somos brinquedos de outra criança. Diga que somos soldadinhos de chumbo."

6 comentários:

  1. Realmente, você é muito bom com as palavras.
    Às vezes, seria melhor que fôssemos "soldadinhos de chumbo", mas o melhor que temos a fazer é encarar a realidade.


    Admiro sempre.
    /Patrícia M.

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  2. É. Mas às vezes não dá pra sermos brinquedos. Temos que fazer o que é certo, mesmo que pareça errado.

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  3. Esse garoto tem futuro... Muito legal essas histórias dele!!! Queria aprender a escrever assim como você =/ (rsrs) By.= Felipe//~

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  4. Wow! Olhe, digo uma coisa, esse texto não me surpreendeu, apesar de minha introdução ter denunciado a ação esboçada por mim ao fim da leitura do mesmo,rsrs...JÁ SABIA QUE SERIA MAIS UMA OBRA-PRIMA! Vinícius, é sempre um enorme prazer ler você,só peço uma coisa: pare não mestre. Continue sempre publicando seus textos, acabei de chegar da facul e só agora pude ler o àcima...mas foi muito bom acabar a noite com a leitura de tão belas e, escolhidas,acertadamente, cada palavra.Cara, que texto, q profundidade de pensamentos, q situação!!!
    "E se uma das crianças notar a invasão e perguntar quem somos? - Uma lágrima correu no meu rosto. Respondi secamente: 'Diga que somos brinquedos de outra criança. Diga que somos soldadinhos de chumbo'." Nossa, vc sabe emocionar cara...Até o próximo post meu amigo!

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  5. Formidável! Parabéns !!!

    Alexandre Felipe

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