segunda-feira, abril 26, 2010

Atenção

Não usarei mais esse blog para minhas postagens. Estou unindo-o junto do "A onomatopéia" e "Whisky e duas pedras de gelo" em um único blog, com um desing melhor. As postagens que aqui estão estarão também no novo blog, visitem.

www.tripudie.worpress.com
Abraços a todos, aspirante a escritor.

sexta-feira, abril 16, 2010

Crianças más

Rodrigo sentou-se na calçada enquanto o amigo atravessava a rua para pegar a bola.
_Você acha que os pais escutam quando você pede algo em datas importantes? - perguntou o outro.
_Claro que sim. No final, eles vão te dar o video-game. - disse Rodrigo com o ar desinteressado.
O amigo assentiu. O outro sempre ganhava o que queria. O outro era mais querido, mas amado. O outro parecia ser mas cuidado. O outro era sempre mais.
Rodrigo balançou a cabeça. Sabia que deveria querer o presente para o amigo, para que ficasse feliz também. Que seja, não é mesmo?
_Você só vai me levar para sua casa, para a gente brincar, não é mesmo Max?
_Mas é claro. Você é meu amigo Rodrigo, nem pensei em levar outra pessoa.
Max era menor, mais magro. Rodrigo parecia o irmão mais velho que brincava para agradar o outro. Gostava do menor, era um bom garoto, mas algo nele incomodava Rodrigo. E isso, nem ele entendia porquê.
_Está anoitecendo, - começou Rodrigo - é melhor pararmos de brincar. Senão depois sua mãe fala que eu fiquei te segurando e que é perigoso. Preciso ir também.
_Está bem. Posso te chamar na sua casa amanhã?
_Claro. Depois das nove, quero dormir bastante amanhã de manhã.
O outro sorriu.
Rodrigo voltou devagar pensando em sua vida. Seu pai nunca estava em casa e sua mãe nunca estava pronta para ser mãe. A comida dela era horrível, o quarto quem limpava era ele. No final, passou a cozinhar também só para não ter que comer a comida da mãe. O pai era muito bravo e sempre temia dizer que as roupas e o sapato já não serviam. Pensou na última conversa com o pai, sobre vender picolés na porta da escola do bairro para o pessoal da manhã e da noite.
"_Não é perigoso, pai? - perguntou educado.
_Largue de ser bobo, moleque, quem faria mal a você? - respondeu o pai nervoso."
Lembrava disso e ficava chateado com o pai. Ele realmente era chato.
Quando chegou em casa sua mãe estava deitada vendo TV. Perguntou se o menino queria comer algo e ele respondeu que não e foi para o quarto. Pegou o convite do aniversário de Max em cima da escrivaninha. Ia ser uma super festa.

***

A festa foi realmente um sucesso. Palhaços, brinquedos, muitos doces, lembrancinhas, tudo propiciou a Rodrigo sorrisos verdadeiros, risadas gostosas, coisas que ele não fazia sempre. Sentiu-se bem na festa e só parou para pensar em uma coisa no final da festa: "Essa festa não é minha. É do Max". Sentiu-se culpado por estar feliz e ficou pior quando foi avisado que seu pai o esperava lá de fora.
Tinha visto Max abrir a embalagem do video-game ganho pelos pais. Ficou com vontade de quebrar o aparelho, não sabia por que. Em casa, explicou que tinha comido na festa e que ia se deitar. Já no seu quarto, ligou uma TV pequena que tinha lá, muito antiga e ficou vendo um filme americano de terror. Gostava desses filmes. Achou-se esquisito, na sua idade odiava gibis infantis, desenhos animados, filmes infantis... Odiava ser criança. E tinha aprendido isso com sua família.
No filme o serial killer matava sem piedade. Rodrigo achou divertido, porém uma das mortes o surpreendeu de verdade: quando o assassino jogou um aparelho elétrico dentro de uma banheira enquanto a moça tomava banho. Rodrigo ficou pasmado com a cena e sorriu. Aquilo o fez bem de alguma forma.

***

_Você tem quantos anos, Rodrigo? - perguntou Max enquanto abria a porta do quarto.
_Onze. - respondeu enquanto entrava.
_Daqui uns anos faço onze, aí vou ser grande como você!
_Talvez até maior, Max. - respondeu sorrindo.
Max deu uma gargalhada feliz por ouvir aquilo. Apontou para a cama repleta de presentes:
_Espero que no meu aniversário de onze anos eu ganhe tanto presente ou até mais!
Realmente, era muito presente, porém fora o video-game o resto não interessava a Rodrigo. Desconversou:
_São demais. Mas eu queria ver seu video game.
_É mesmo, o mais legal.
Max empurrou os presentes para uma beirada da cama. Não caberia os dois ali sentados, então resolveu sentar no tapete. Com o controle ligou a TV que estava presa a um suporte na parede. O video-game estava ao lado dela e então, Rodrigo tratou de ligar. Sentou-se. Finalmente ia jogar algo legal.
_Um de porrada? - perguntou o maior.
_Pode ser.
Rodrigo poucas vezes tinha tocado num video-game. Às vezes comprava uma hora no cyber café ao lado da sua escola para jogar, mas sempre perdia. E ali, com Max não foi diferente. Max já tinha aprendido com uns primos. E agora estava dando uma surra em Rodrigo.
Depois de perder por mais de dez vezes, Rodrigo levantou-se e jogou o controle no chão.
_Ei, não joga, senão quebra! - bradou Max.
Rodrigo não respondeu. Simplesmente deu um soco muito forte no menor. Rodrigo era grande demais para sua idade e Max muito magro para uma criança. Um soco foi o suficiente para quebrar um ou dois dentes do outro.
Rodrigo puxou o video-game dos fios com toda a força, arrebentando alguns, e jogou sobre o outro que respondeu com um grito que pedia para parar. A mãe de Max ouviu da cozinha o grito do filho. Quando a mulher chegou correndo no quarto, Max estava com a cabeça sangrando e Rodrigo com alguns fios do video-game nas mãos, puxando-os com toda a força no pescoço de Max que já estava roxo. Max estava quase morto.
Rodrigo tentou se debater contra a mulher sem sucesso. Correu para bem longe, menos para sua casa. Se chegasse lá, provavelmente...

segunda-feira, abril 12, 2010

Cinema mudo

Caio abaixou a cabeça. A fila para a compra dos ingressos estava enorme e ele só estava na metade. Erguei o braço esquerdo de modo que pudesse olhar as horas. Era sete e meia da noite e Paloma estava atrasada.

_Cinema dentro de um shopping é meio complicado. Segundo andar... Paloma deve estar em alguma loja comprando sapatos. – pensou o rapaz enquanto dava um passo para frente, despertando dentro de si sensação de progresso. – só espero que ela não demore.

Aproximava-se da bilheteria quando começou a se cansar. Apoiou-se no pé direito, esquerdo, muito rapidamente e cruzou os braços. Quando finalmente chegou à bilheteria, já estava com dores nos pés. Já eram oito horas e Paloma nem dera sinal. Comprou os ingressos e desceu para a praça de alimentação. Sentou-se lá e apesar de não querer ligar, não hesitou em tirar o telefone celular do bolso e depois de achar o número da namorada e ficar olhando-o, pensando se ligaria ou não. Ligou. Quando resolveu guardar o celular no bolso Paloma tinha duas chamadas não-atendidas em seu celular.

Várias coisas se passaram na cabeça de Caio. Acidente, assalto, desmaio, problemas familiares... Amassou os ingressos na mão, colocando-os no bolso com dificuldade, pois suas mãos estavam suadas.

Decidiu esperar. Ajeitou-se no banco da praça de alimentação e passou a reparar na multidão. Domingo à noite, shopping cheio. Não se podia ouvir uma frase inteira sem dificuldade por conta do barulho da multidão. Dois garotos corriam perto da Subway e com desdenho Caio os olhou. Reparou numa jovem mais velha, dezoito, dezenove anos, que corria atrás das crianças, vestida de uma calça jeans branca e uma camiseta gola-pólo azul, com um rabo-de-cavalo. “Essa é a babá”, pensou o rapaz buscando com os olhos uma mulher que aparentasse ser mãe dos moleques. Encontrou-a num vestido exótico, na casa dos quarenta, de braços dados com um homem mais velho de barba grisalha. “Aqueles são os pais”, disse para si sorrindo, como se vencesse um desafio.

Caio parou de repará-los e ficou observando a multidão, pensando no barulho. E naquele barulho que hora poderia ser ensurdecedor tornou-se algo como o silêncio e Caio começou a se acostumar com ele. Olhou no relógio de pulso. Já estava começando a sessão para a qual ele comprara o ingresso. Subitamente se levantou e pensou se sua namorada o estaria procurando no andar de cima. Subiu a escada rolante, impaciente, e quando já quase chegava ao outro andar notou um conhecido sentado na praça de alimentação. Um amigo do colégio, do Ensino Fundamental. Estava acompanhado de uma moça, talvez sua namorada.

Caio quase tropeçou ao fim da escada rolante. Foi motivo de escárnio de alguns pré-adolescentes que estavam logo atrás dele. Olhou com ódio para os moleques, mas não disse nada. Perguntou-se por que Paloma demorava tanto. Procurou-a aos redores da bilheteria e nenhum sinal da moça. Pensou em descer novamente, mas desistiu ao topo da escada rolante e resolveu ficar olhando as pessoas da sacada. O conhecido dos tempos de colégio beijava a moça que o acompanhava. Caio começou a imaginar o que aquele teria feito, em quê teria se formado. “Um dia ele falou sobre engenharia. Qual delas? Mecânica, Mecatrônica, Elétrica, Civil, Aeronáutica, Química, Ambiental... Puta que pariu. Qual esse cara escolheu?” – pensou irritantemente. Resolveu observar a moça que acompanhava o conhecido. Mesmo sentada, não parecia muito alta. Dezenove, vinte anos. O casal deu um beijo rápido, e então Caio reparou profundamente o rosto dela. Pelo menos de longe era bonita.

O celular de Caio tocou, quebrando o silêncio interno provocado pelo barulho do shopping. Era Paloma.

_Onde você está? Perdemos a sessão! - disse Caio.

_Desculpe Cá, eu me atrasei e quando saí de casa um maldito motoqueiro me arrancou o retrovisor esquerdo.

_Nossa, você está bem? – perguntou preocupado.

_Sim, só estou plantada no passeio com um policial, fazendo a ocorrência.

_Quer que eu vá até você?

_Não querido, não precisa. Meu pai está vindo, lhe vejo na faculdade amanhã. Você precisa descansar.

_É, ficar plantado no shopping é bem cansativo.

_Desculpe Cá... – carinhosa.

_ Tudo bem, amanhã nos vemos. - e desligou.

Não estava irritado com Paloma, mas ficou chateado por esperar tanto para nada. Mas não culpou a namorada. Resolveu comer algo e no Coffee Town fez o pedido. Enquanto comia duas mocinhas de catorze anos passaram ao seu lado, olhando-o e dando risadinhas. Sentiu-se bem. Ficou pensando no que elas diziam. Se não houvesse tanto barulho no shopping! Não haveria o silêncio interior que o despertara para as outras pessoas.

Assim que saiu do shopping para o estacionamento, o barulho comum das ruas voltou. O silêncio interior se estilhaçou e Caio concluiu que lá dentro sentia-se melhor, no silêncio obrigatório estimulado por multidões. Era uma espécie de cinema mudo em que os atores anônimo, ótimos, interessantes... Enfim, atores que falavam e não eram ouvidos. Eram observados e quem observava (Caio) não se preocupa em ser ouvido. Observar os atores num silêncio pleno interior. O cinema inexistente saíra caro, mas ficar ali plantado...